O varejo no segundo semestre: navegando entre eleições e turbulências globais

Por Gilberto Eidt – Presidente da CDL Santa Cruz

O segundo semestre de 2026 se desenha como um período de complexidade e incertezas para o cenário econômico brasileiro, com reflexos particularmente acentuados no mercado de varejo e comércio do Rio Grande do Sul e, em especial, de Santa Cruz do Sul. A proximidade das eleições presidenciais, somada a desafios macroeconômicos internos e a um ambiente geopolítico global volátil, exige dos empresários uma capacidade de adaptação e planejamento estratégico sem precedentes.

A economia brasileira, conforme projeções, deve registrar um crescimento modesto do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, variando entre 1,8% e 1,9%. Este desempenho, inferior à média global, é influenciado por uma política monetária ainda restritiva. A taxa Selic, que em abril de 2026 se encontrava em 14,75%, iniciou um ciclo de cortes graduais no primeiro trimestre, mas a expectativa é que encerre o ano ainda em patamares elevados, entre 12,25% e 12,75%. Juros altos encarecem o crédito, inibindo o consumo e o investimento, fatores cruciais para o dinamismo do varejo.

Adicionalmente, a inflação permanece como um ponto de atenção, impulsionada principalmente pelos preços de combustíveis e alimentos, com o IPCA oscilando entre 4,4% e 4,7%. O desafio fiscal é outro pilar de preocupação, com um déficit primário significativo e uma dívida pública que se aproxima de 80 a 84% do PIB. A persistência de um cenário de “dominância fiscal” pode limitar a capacidade do Banco Central de reduzir os juros de forma mais agressiva, mantendo o custo do dinheiro elevado.

No Rio Grande do Sul, o cenário apresenta nuances. A agropecuária, motor econômico do estado, projeta uma retomada robusta em 2026, impulsionada por uma supersafra de soja e milho, com aumentos de 34% e 21% na produção, respectivamente. Essa recuperação tende a injetar renda no interior do estado, potencialmente beneficiando o comércio local. Contudo, a indústria e o comércio gaúchos iniciaram 2026 com retração, registrando quedas de 3% na produção industrial e 4,7% nas vendas do varejo ampliado no primeiro bimestre. O mercado de trabalho, embora com baixo desemprego (3,7% no RS), enfrenta a pressão da inflação de serviços, que corrói o poder de compra das famílias. A arrecadação de ICMS também reflete esse desaquecimento, com uma redução real de 2,1% no primeiro trimestre.

As eleições presidenciais de 2026 já se manifestam como um fator de volatilidade e incerteza para a economia brasileira. O cenário político, ainda polarizado e com a disputa eleitoral ganhando peso nas projeções econômicas, tende a gerar um “ano binário”: um primeiro semestre de otimismo moderado, impulsionado pela expectativa de queda de juros, e um segundo semestre de maior cautela, dominado pela instabilidade política e pelo risco de descontrole fiscal pós-eleições. A capacidade do próximo governo em sinalizar um plano crível de ajuste das contas públicas será determinante para a estabilidade econômica e a confiança dos investidores.

O contexto internacional adiciona camadas de complexidade. As políticas de tarifas do governo Trump nos Estados Unidos podem impactar negativamente o agronegócio brasileiro, com estimativas de perdas de até US$ 2,7 bilhões . Conflitos geopolíticos, como os observados no Oriente Médio, continuam a pressionar os preços do petróleo e, consequentemente, dos fertilizantes, elevando os custos de produção para o setor agrícola e impactando a cadeia de suprimentos. E este impacto será sentido ainda mais no setor de produção de tabaco, carro chefe da nossa região, que já foi impactado na última safra com uma compra aos produtores rurais que não foi tão boa.

Diante desse panorama, o varejo e o comércio no gaúchos  enfrentam desafios como o encarecimento do crédito, o endividamento das famílias e os custos logísticos . No entanto, há também oportunidades. A recuperação da agropecuária pode impulsionar o consumo no interior do Estado. A digitalização e o foco na experiência do cliente, com a integração de canais online e offline, tornam-se imperativos para atrair e reter consumidores . A busca por produtos e serviços que ofereçam maior valor agregado e durabilidade, alinhada às novas tendências de consumo, pode ser um diferencial competitivo.

Em suma, o segundo semestre de 2026 exigirá do varejo gaúcho resiliência e inovação. Acompanhar de perto o cenário político-econômico, adaptar-se às mudanças nos hábitos de consumo e investir em eficiência operacional e digitalização serão chaves para navegar com sucesso por este período de transformações.

Sede CDL Santa Cruz

Rua Assis Brasil, 951 | Centro 96.810-158 Santa Cruz do Sul/RS

Casa CDL

Rua Marechal Floriano, 762 | Centro Praça Getúlio Vargas 96.810-052 Santa Cruz do Sul/RS

Contatos

SEG a SEX: 8h30 às 12h00 l 13h30 às 17h45
SÁBADO: 9h00 às 12h00

© 2025 CDL Santa Cruz do Sul. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por GB Dev – Soluções Digitais